segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Qual o sentido disso tudo?

A imprensa disse: "O Rio está em guerra!" Taí um prato cheio pro sensacionalismo.
Mas, e as vidas perdidas? Quando são os bandidos que morrem é só um detalhe, não têm nomes, só rostos delinquentes. Aquela pregação de que "bandido bom é bandido morto" é uma aceitação à pena de morte, sem julgamento. Li por aí que os policiais não metralharam os bandidos porque tava tudo sendo transmitido pela TV ao vivo. Pega mal uma chacina ao vivo, né? Então não matamos pra não assustar os telespectadores, mataremos quando não tiver alguém "relevante" vendo!

Ninguém quer dominação do tráfico, queremos que a violência diminua ao máximo, abaixo de zero, não queremos que ninguém seja assassinado. Porém, para tentar alcançar o sonho da paz muitos MORREM pra ninguém morrer mais, sente o drama?
Isso foi uma grande REPRESSÃO, e repressão é movida à violência. Repressão (por si só) não resolve nada, talvez uma ação integrada dos setores investindo em educação, inclusão social, serviços públicos de qualidade, capacitação e ofertas para uma profissão diminua o índice de violência, mas não acho que acabará com ela. Todos sabemos que o "chefe do tráfico" e de todos envolvidos com o crime se formaram pela sua vivência ao meio do descaso das favelas. Moro numa, sei como é mais difícil. Daí partem pelo caminho que já conhecem bem de perto e que sabem que terão mais "sucesso". Mas o crime não se limita a classe social e disso sabemos bem também. O saldo bancário faz uma diferença gritante/berrante na hora do julgamento e na aplicação do "castigo".
Não existe dignidade quando uns estão à 30.000 pés e outros à 7 palmos. Há uma urgência em se abrir todas as portas possíveis e não a mais óbvia que se encontra sempre aberta. Essa deve ser trancada e a chave incinerada.

Mas não vou ficar apontando soluções sutis como foi a que se aplicou ao do tráfico, porque é algo extremamente complexo. Respostas prontas e curtas são fáceis. Talvez por isso que os jornalistas anunciaram a operação "pé na bunda de bandido" como uma GUERRA cinematográfica a la filme de ação, com um fortão fodão no comando. Com uma narrativa exagerada, como se só isso bastasse pro "bem" vencer o "mal" e a hipócrita/falsa sensação de segurança se espalhar no ar com a morte/prisão dos figurantes.

Portanto, se não forem postas em prática soluções mais beneficientes, nada disso que foi feito mudará a realidade dos morros/favelas. Outro moleque que está sendo criado do mesmo jeito que os chefões foram, mal crescerá e já estará dominando geral de novo, fazendo o tráfico se reestruturar. Daí a repressão é novamente aplicada, mais pessoas morrem e mais a mídia transforma todo esse caos numa tragédia glorificada pelas pessoas das classes mais elevadas. Digo isso por experiência vivida. Quando o rei morre, o filho assume o trono!

E novamente o favelado aparece como o vilão da sociedade religiosamente decente. O mesmo vilão que trabalha muito, mora mal, passa fome, tem a casa alagada... que faz a cidade se movimentar, e que só é lembrado pela grande massa quando assuntos como esse do Rio explodem manipulados pelas opiniões da mídia. Essas pessoas não criam os filhos para serem bandidos ou traficantes, nem para se viciaram em drogas (diariamente grupos de crianças fazem isso no portão da minha casa). Esses pais lutam pra que isso nunca aconteça, mas na maioria das vezes, a influência vem dos outros, que sofreram o mesmo e já foram deslumbrados (digo por experiência familiar).
Os pobres só são interessantes quando estão sofrendo/morrendo/matando/roubando/se prostituindo, são a escória a maioria das vezes por "não ter instrução"... Mas pouco barulho se faz quando algo é feito pra mudar essa realidade ou quando agarram-se oportunidades.

Por que a realidade só é legal de ser mostrada e assistida quando é uma realidade boa, sem problemas realmente necessitados de serem combatidos?
E o que leva as pessoas à tentarem a resolver as coisas usando ARMAS? A vida anda valendo quantos calibres? O que leva alguém a segurar uma arma e apontá-la como solução? Quem mata é melhor de quem morre?


Comodoro
"Ain't No Right"
Acabou O Bailinho
dir: Ricardo Carelli

Nenhum comentário: