sábado, 12 de novembro de 2011

O Videoclipe Documental

Nos últimos anos, uma linguagem diferente nas obras videoclípticas vem se consolidando, deixando um pouco de lado a principal função que o clipe tem: o de vender a música. Artistas mais "engajados", com a ajuda de diretores mais experimentais, vêm criando um tipo de videoclipe narrativo-documental, ultrapassando os limites da música e se extendendo, em algumas peças, à mais de 10 minutos, narrando um fato de descaso real, sentimental, orgânico ou baseado na relidade. A linguagem de short film vem sendo usada com um propósito mais realista do mundo globalizado, servindo como forma de alerta, protesto, expressão... incomodando os olhos dos espectadores, onde a música fica meio de segundo plano, devido às fortes mensagens visuais que trazem.
A inclusão digital e tecnológica vem ajudando esse cenário, onde aparecem artistas das periferias do mundo, usando o clipe como forma de denúncia. A marginalização da cultura periférica e a restrição ao acesso da arte mais elitizada, tida como mais experimental e de mais dificuldade de compreensão criou uma barreira na difusão das obras. E esse jeito diferente de videoclipe quebra um pouco esse distanciamento, mesmo que sejam feitos por artistas ultra-alternativos com uma pegada mais sentimentalista, social ou política.
Ainda que sejam mais politizados, esses clipes não agradam muito o público, nem a mídia, que por vezes, censura ou restringe a exibição. Os detentores da opinião pública e da arte não gostam que seu público saiba da verdade, não querem a grande massa populacional com senso crítico apurado. Mas, ainda assim, o número de clipes nesse estilo aumentou nos últimos anos, e a linguagem documental [fictícia ou não] vem sendo usada por muitos artistas, ainda que contra a vontade das grandes gravadoras.
A seguir, exploraremos algumas destas obras videoclípticas, por vezes impactantes, e seus conteúdos que fazem paradóxicos com a realidade mundial contemporânea:

Em 1989, Public Enemy e Spike Lee organizaram uma passeata contra o racismo e a violência no bairro do Brooklyn, em Nova York. Uma multidão apareceu pra gravação do clipe, que mostra que na concepção de herói ou ídolo de um grupo, o negro nunca era incluído, com críticas a cultura negra adaptada para brancos, como aconteceu com a música de Elvis Presley.

Public Enemy
"Fight The Power"
Fear Of A Black Planet
dir: Spike Lee



Dirigidos por Michael Moore, o clipe para Testify, dos Rage Against the Machine lançado no ano 2000 é uma tentativa de desmascarar as campanhas políticas estadunidenses, mostrando as semelhanças nos discursos dos principais concorrentes da época: George W. Bush e Al Gore. A alerta da banda não foi bem ouvida e no ano seguinte, mais precisamente no dia 11 de setembro ocorreu aquele grande espetáculo que repercute até hoje no mundo. American way, baby!
Rage Against The Machine
"Testify"
The Battle Of Los Angeles
dir: Michael Moore



Continuando na linha de videoclipes de protesto, no dia 15 de fevereiro de 2003 aconteceu pelo mundo todo uma série de protestos e passeatas contra a guerra que os EUA haviam iniciado contra o Iraque. As cenas do protesto viraram um clipe para a música Boom!, do System of a Down, dirigido pelo ousado documentarista Michael Moore. O clipe foi censurado na Europa e nos EUA, classificado como impróprio para menores de 18 anos. A sátira com George W. Bush, Saddam Houssein, Osama Bin Laden e Tony Blair foi um dos motivos da censura:

System Of A Down
"Boom!"
Steal This Album
dir: Michael Moore



Já o video de Sleep Now in the Fire, a crítica foi contra a rede de supermecados Wallmart, à promessa de programas de TV que prometem deixar pessoas milionárias e ao consumismo. A filmagem acabou na prisão da banda e do diretor do clipe acusados de baderna. Quem é opressor?

Rage Against The Machine
"Sleep Now In The Fire"
The Battle Of Los Angeles
dir: Michael Moore



Emicida, ao contrário de outros rappers, fez a rima de Rua Augusta para mostrar a realidade e o que leva uma mulher ao submundo da prostituição. Colhendo depoimentos na Vila Mimosa, point do Rio de Janeiro, chegaram até Rosana, que achou na prostituição um ganha-pão para sustento de seu filho e de si própria. Dessa vez criticou-se a prostituição e não a mulher que se prostitui. "A ideia tanto da rima como dos vídeos é tirar esse glamour da prostituição".

Emicida
"Rua Augusta"
Emicídio
dir: Felipe Rodrigues e Lucas Gandini

>> O clipe gerou o mini-documentário Além da Rua Augusta, que segundo Emicida, a ideia era “humanizar a coisa, mostrar a luta de uma mãe com seu filho, dois contra o mundo. Acho que conseguimos…”




Em Saturday Come Slow, do Massive Attack, a música fica em segundo plano pois o princípio do video é uma campanha de um coletivo chamado Zero dB contra o uso de música como instrumento de tortura na base militar americana de Guantánamo, em Cuba. Com 8 minutos de duração, mostra-se um depoimento e uma explicação científica sobre os efeitos agonizantes que esse processo causa,  com algumas demonstrações intensas do uso de distorções sonoras que os prisioneiros se sujeitam por meses ininterruptos. A campanha surgiu em junho de 2010, onde músicos se juntaram e gravaram uma música sem som.

Massive Attack feat. Damon Albarn
"Saturday Come Slow"
Heligoland
dir: Adam Broomberg / Oliver Chanarin

Na 1ª versão do clipe para a canção The Answer, há uma intimista reflexão desarrojada sobre as intervenções que fenômenos da natureza causam nos humanos e  uma nostalgia de tempos memoráveis de juventude, relatados pelo ator Ray Winstone. Um acontecimento aparentemente real com uma força motivadora, que torna-se uma reinvidicação vital, numa montagem e no uso do tempo narrativo, refletido pela qualidade cinematográfica do diretor. A música também fica em segundo plano nessa obra:

UNKLE feat. Big In Japan
"The Answer (vr.1)"
Where Did The Night Fall
dir: John Hillcoat

Já na 2ª versão, não há diálogos e a música fica mais em evidência, sincronizada com cenas do documentário sobre surf e snowboard Lives of the Artists. As belas imagens completam a música e vice-versa. Uma troca inexorável:

UNKLE feat. Big In Japan
"The Answer (vr.2)"
Where Did The Night Fall
dir: Ross Cairns

Em 2008 a cantora Dido, pra divulgar as músicas de seu então novo álbum, chamou 11 diretores de países diferentes para gravarem um clipe-documental para cada música do disco. Com temas girando em torno do que “estar em casa” significa para eles, vieram videos de países como Nova Zelândia, Tailândia, Inglaterra, Escócia, Índia, Portugal, França e EUA. Entre os diretores escolhidos está o fotógrafo e cineasta carioca Marcos Prado, diretor de “Estamira” e produtor do documentário “Ônibus 174″.
Marcos Prado tornou em realidade a  música “Us 2 little gods” com imagens do premiado “Estamira”, de 2006. O filme conta a história de uma senhora idosa que viveu e trabalhou durante 20 anos no Depósito de Lixo de Jardim Gramacho e fez do local seu conceito de lar no Rio de Janeiro. Segundo Prado, a idéia do clipe, batizado de “Lady Landfil”, era mostrar a relação curiosa de amor, carinho e amizade que Estamira e seus amigos dividiam neste velho lugar, chamado por eles de casa.
Dido
"Us 2 Little Gods"
Safe Trip Home
dir: Marcos Prado
Os filmes mostram histórias de esperança, amor, comprometimento e pertencem ao mundo todo, como um motorista de táxi em Mumbai, a costa acidentada de uma ilha ao sul de Nova Zelândia, um ringue de boxe na Tailândia e uma pitoresca vila de pescadores em Portugal. Os outros clipes desse projeto estão no canal da cantora no YouTube.


A proposta para este clipe foi simples: documentar uma apresentação surpresa do REM numa escola. O resultado foi:

R.E.M.
"All The Way To Reno (You're Gonna Be A Star)"
Reveal
dir: Michael Moore



Das entranhas da megalópole de Los Angeles até a mais selvagem da natureza , no meio dos desertos da Califórnia com cadeias de montanhas e lagos. Este é o caminho que o ator Carel Struycken (The Adams Family, Star Treck, Men in Black) faz em busca de si mesmo, narrando o quão difícil é o convívio com a civilização devido sua notável aparência. Nessa obra, mais uma vez a música serve como pano de fundo da narrativa de Carel, com bonitos takes do que a civilização e a natureza tem a nos oferecer, mas estamos muito ocupados com nós mesmos para perceber. 

Tika
"For Better Or For Worse"
In A Cabin With Tika
dir: Victor Vroegindeweij


Se alguém desavisado assistir ao próximo clipe, com certeza irá acreditar que se trata realmente de um reality-show em que dois dançarinos profissionais estão em busca dos dançarinos perfeitos para uma coreografia chamada Bubble e assim, participarem de uma competição de dança. Apesar de ser fake, é divertido por causa dos personagens e da edição pop que Cédric deu ao video. It's a Bubble, bitch!

Beni feat. Sean Dealer & Turbotito
"It's A Bubble"
House Of Beni
dir: Cédric Blaisbois


Se outro desavisado e sem senso crítico assistir ao clipe Stress com certeza irá pensar que o video incita a violência gratuita, o racismo, o machismo, o vandalismo, a xenofobia... dando um golpe de marketing para vender a música do duo francês JUSTICE. Outros já podem achar que o video é um protesto cinematográfico contra toda e qualquer forma de violência, influenciado por filmes como Laranja Mecânica.
Mas segundo a dupla, a intenção era fazer um clipe que seria censurado pela TV para uma música que foi censurada pelo rádio, numa paródia de como a mídia jornalística sensacionalista trata as notícias, principalmente quando envolve a violência nas periferias. A ideia era abrir um debate, levantar questões, algo feito regularmente pelo cinema, literatura e arte contemporânea, mas que não acontece muito no YouTube, onde os videos de bullying, recitais de poesia, pornografia e artes em geral se misturam com poucos minutos de duração.
De um jeito ou de outro, Stress serve bem para ilustrar o quão duvidoso é o conteúdo do YouTube e das mídias convencionais e o quanto as notícias são má interpretadas e manipuladas. Um clipe-documento para uma questão importantíssima, do qual considero um dos mais geniais já feitos até hoje.

JUSTICE
"Stress"

dir: Romain Gravas


A solidão de um assassino sociopata, narrada em francês e interpretada no video 27/19, mostrando porque começaram os crimes e como ele os praticava, legendado em inglês:

Kinder
"27/19"
Kinder
dir: Gustavo de la Torre Casal



Numa mistura de documentário e filmes de ficção científica russos, All Nightmare Long traz um footage de cenas que formam uma aterrorizadora história, que mostra o resultado de uma experiência científica feita com os esporors de um cometa que caiu na Terra, e que tinham substâncias que ressuscitavam seres mortos, mas os deixava extremamente violentos e indestrutíveis. Um caos nuclear se fixa no planeta e que, quando parece estar sob controle, novas experiências arriscam mais uma vez a vida na Terra. Digno de replays!

Metallica
"All Nightmare Long"
Death Magnetic
dir: Roboshobo


E para encerrar essa lista, mais um video do Massive Attack, dessa vez para a música Paradise Circus, que serviu apenas para trilha sonora do mini-documentário-videoclíptico sobre a atriz pornô e ex-prostituta Georgina Spelvin, com seus 73 anos de idade falando abertamente de sexualidade, comentando sobre orgasmos e prostituição, com cenas entrecortadas dos seus grandes clássicos do cinema pornô como O Diabo na Carne de Miss Jones, (1973) e Garganta Profunda (1972). Contém cenas de sexo explícito, então cuidado se for ver em público, pois é digno de replays:                     

Massive Attack feat. Hope Sandoval
"Paradise Circus"
Heligoland
dir: Toby Dye


______________________________________________________________________________

O conceito de videoclipe documental parte para um lado mais fictício, porém baseando-se na realidade, já que não possui as mesmas barreiras do cinema documentário. Com propósitos apelativos para alguma causa, essa outra "vertente" cinematográfica acaba se sujeitando a casos de censura, mas passam a mensagem de um jeito forte e questionador. O objetivo é fazer com que o cérebro do telespectador pare pra pensar. Por serem mais subjetivos, estão cheios de brechas interpretativas.
Essas são minhas interpretações para os videos, mas agora você concretiza a sua, nos comentários!